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Não Votar Também É uma Decisão

NÃO VOTAR TAMBÉM É UMA DECISÃO

Por José Roberto Marques

O que 33,4 milhões de ausências no primeiro turno dizem sobre presença, responsabilidade e a crença de que a nossa participação individual não faz diferença.

No primeiro turno das eleições de 2026, 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas. Foram 21,08% dos eleitores aptos a votar. É um número tão grande que corre o risco de perder o significado e virar apenas estatística. Então vale tentar enxergá-lo de outra maneira. O estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, possui pouco mais de 34,1 milhões de eleitores. Isso significa que o número de ausentes no primeiro turno equivale a quase todo o eleitorado paulista. É quase como se um São Paulo inteiro tivesse ficado fora da decisão. E quando uma ausência alcança essa dimensão, talvez a pergunta mais importante não seja apenas eleitoral. Talvez seja humana: o que acontece conosco quando começamos a acreditar que a nossa presença não faz diferença?

É evidente que 33,4 milhões de pessoas não deixaram de votar pela mesma razão. Existem doenças, viagens, dificuldades de deslocamento, compromissos, imprevistos, desorganização, desencanto político e inúmeras circunstâncias pessoais. Seria simplista, e cientificamente errado, tentar reduzir uma realidade dessa magnitude a uma única causa psicológica. Mas a dimensão do fenômeno nos permite observar algo que vejo há décadas no comportamento humano: quando uma pessoa acredita que aquilo que pode fazer é pequeno demais diante do tamanho do problema, ela corre o risco de desistir exatamente da parte que ainda estava ao seu alcance.

Em 1968, os psicólogos sociais Bibb Latané e John Darley realizaram um experimento que se tornaria clássico. Participantes respondiam a um questionário enquanto fumaça começava a entrar na sala. Quando estavam sozinhos, 75% comunicaram a presença da fumaça. Quando estavam acompanhados por duas pessoas que permaneciam tranquilas e não reagiam, apenas 10% fizeram o alerta. Em grupos de três participantes que desconheciam o experimento, pelo menos uma pessoa comunicou o problema em 38% dos grupos. A fumaça era a mesma. O ambiente era o mesmo. O que mudava era a interpretação de cada indivíduo diante do comportamento dos outros.

Quando ninguém reage, alguma coisa pode começar a acontecer dentro de nós. Talvez não seja tão sério. Talvez eu esteja exagerando. Talvez alguém saiba mais. Talvez outra pessoa faça alguma coisa. A responsabilidade começa a se diluir. A psicologia estudou esse tipo de fenômeno dentro de conceitos como efeito espectador e difusão da responsabilidade. Isso não significa que a abstenção eleitoral brasileira seja consequência direta desse mecanismo. Não há base para fazer uma afirmação dessas. O que existe, sim, é uma pergunta legítima sobre comportamento coletivo: quantas vezes diminuímos o valor da nossa própria ação porque imaginamos que há gente demais, problemas demais ou pessoas demais capazes de agir em nosso lugar?

“Alguém vai fazer.” “Meu voto não muda nada.” “Uma pessoa a mais ou a menos não faz diferença.” São frases que parecem pequenas, mas carregam uma visão de mundo. Talvez uma das crenças mais perigosas para qualquer sociedade seja esta: a minha parte é pequena demais para importar. Porque praticamente tudo o que construímos coletivamente nasce da soma de partes pequenas. Nenhum eleitor decide uma eleição sozinho. Nenhum cidadão transforma um país sozinho. Mas nenhuma eleição e nenhum país existem sem milhões de pessoas assumindo, cada uma, uma parcela de responsabilidade.

Existe um conceito da psicologia política que ajuda a aprofundar essa reflexão: a eficácia política percebida. Em termos simples, é a crença de que a nossa participação pode produzir algum efeito no processo político. Quando alguém perde completamente essa percepção, o afastamento se torna mais provável. E existe aqui uma diferença que considero fundamental. Não controlar o resultado não significa não participar dele. Nenhum eleitor controla sozinho uma eleição. Nenhum voto isolado carrega a decisão inteira. Mas o poder do voto nunca esteve em ser único. O poder do voto está justamente em se somar a outros votos.

Por isso, este texto não é uma defesa de candidato, partido, direita, esquerda ou centro. Eu não quero que ninguém vote como eu. Na verdade, considero saudável que ninguém vote simplesmente porque alguém mandou, pressionou ou influenciou. O voto precisa nascer da liberdade, da consciência, da análise de propostas, de trajetórias, de fatos e daquilo que cada pessoa acredita ser melhor para o país. Meu convite vem antes da escolha do nome. É um convite à presença. Porque uma coisa é decidir conscientemente não concordar com as opções. Outra coisa é permitir que o cansaço, a frustração ou a sensação de impotência decidam por você.

Eu compreendo que existam brasileiros profundamente decepcionados com a política. Compreendo quem esteja cansado, desconfiado, irritado ou sem se sentir plenamente representado. Democracia não é um estado permanente de entusiasmo. Ela também é feita de divergência, crítica e frustração. Mas há uma pergunta que merece ser feita com honestidade: a sua ausência modifica a eleição ou apenas retira você dela? A eleição continuará acontecendo. Os governantes serão escolhidos. As decisões serão tomadas. As políticas públicas chegarão à vida de quem votou e também à vida de quem não votou. A ausência não interrompe o processo. Ela apenas deixa aquele cidadão fora da soma.

É por isso que digo que não votar também é uma decisão. Não como julgamento moral sobre quem se ausentou, mas como provocação de consciência. Em algum nível, não participar significa aceitar que outras pessoas determinem o resultado sem a presença da sua própria escolha. E isso nos leva a uma reflexão maior sobre liberdade. Liberdade não é apenas ter o direito de escolher. Liberdade também é perceber quando estamos desistindo de escolher porque passamos a acreditar que nossa escolha perdeu valor.

Neste domingo, 25 de outubro, o Brasil volta às urnas para o segundo turno. Quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no segundo, desde que esteja em situação eleitoral regular. Isso é importante porque o primeiro turno já terminou, mas a possibilidade de participação não terminou com ele. A Justiça Eleitoral considera cada turno uma eleição independente. Portanto, para milhões de pessoas, domingo não é apenas a continuação de uma eleição. Pode ser uma nova oportunidade de presença.

Talvez seja também um bom momento para resgatar o significado da palavra patriotismo. Patriotismo não precisa ser vestir a cor de um candidato. Não precisa significar concordar com o governo ou deixar de criticá-lo. Para mim, patriotismo é algo mais simples e mais profundo. É compreender que um país não existe apenas em Brasília. Um país existe também naquilo que cada pessoa faz quando assume a pequena parte da realidade que está ao seu alcance. Democracia não pede que todos pensem igual. Pede que pessoas diferentes aceitem a responsabilidade de participar de uma escolha comum.

Neste domingo, você não precisa votar como seu amigo, como sua família, como seu chefe ou como eu. Você precisa votar como alguém que pensou. Como alguém que pesquisou, comparou, questionou e decidiu. Talvez essa seja uma das diferenças mais profundas entre presença e ausência. Não se trata apenas de apertar números em uma urna. Trata-se de reconhecer que a sua consciência também tem lugar na construção coletiva. E quando alguém diz “eu desisti porque achei que não faria diferença”, talvez valha uma pergunta ainda mais profunda: foi realmente uma decisão ou foi a sensação de impotência decidindo por essa pessoa?

Minha mensagem para este domingo é simples. Não é preciso entusiasmo. Não é preciso concordância absoluta. Não é preciso acreditar que uma escolha individual resolverá todos os problemas do país. É preciso apenas não abrir mão da própria consciência. Pense. Questione. Pesquise. Compare. Discorde, se for preciso. Mude de opinião, se os fatos pedirem isso. Mas decida. Você não controla sozinho o resultado. Nenhum de nós controla. O que cada pessoa pode escolher é se participa dele ou se entrega aos outros a responsabilidade inteira pela escolha.

A eleição seguirá seu curso. A pergunta é se você estará presente na própria decisão. Não vote como eu. Vote como alguém que pensou. Porque participar conscientemente não é imaginar que uma pessoa pode mudar tudo sozinha. É reconhecer que nenhuma transformação coletiva acontece sem que alguém, em algum momento, assuma a própria parte. E talvez a distância entre assistir à história e fazer parte dela comece com um gesto muito simples, silencioso e profundamente democrático: estar presente.

José Roberto Marques é autor de mais de 132 livros, cientista, pesquisador e especialista em comportamento e desenvolvimento humano, fundador do Grupo IBC Educação. Sua trajetória inclui atuação em educação, formação de profissionais, produção de conteúdo e projetos de impacto social, com mais de 6 milhões de pessoas impactadas.

FAQ – Perguntas Frequentes

Qual foi a abstenção no primeiro turno das eleições de 2026?

Segundo dados divulgados com base na totalização do TSE, 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, o equivalente a 21,08% do eleitorado.

Por que dizer que quase um São Paulo inteiro ficou fora das urnas?

São Paulo possui 34.104.226 eleitores. O número de ausentes no primeiro turno, 33,4 milhões, equivale a aproximadamente 98% de todo o eleitorado paulista.

Quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo?

Sim. Cada turno é considerado uma eleição independente. Quem faltou no primeiro turno pode votar no segundo, desde que esteja em situação eleitoral regular.

O que é eficácia política percebida?

É a percepção de que a própria participação pode produzir algum efeito no processo político. Uma baixa percepção de eficácia pode contribuir para o afastamento, embora a abstenção tenha múltiplas causas.

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