Nos acompanhe nas redes sociais

Viva em alta performance

Desperte o potencial infinito que existe dentro de você através do Coaching.

o-que-a-psicologia-pode-explicar-sobre-absten-o-1
Artigos, Artigos Ibc

O que a Psicologia Pode Explicar Sobre Abstenção

O QUE A PSICOLOGIA PODE EXPLICAR SOBRE ABSTENÇÃO, IMPOTÊNCIA E PARTICIPAÇÃO

Por José Roberto Marques

A psicologia não oferece uma causa única para a abstenção eleitoral, mas ajuda a compreender como percepção de eficácia, responsabilidade individual, contexto social e sensação de influência podem aproximar ou afastar as pessoas da participação.

Quando 33,4 milhões de brasileiros deixam de comparecer às urnas em uma eleição nacional, é tentador procurar uma explicação única. Uma palavra, um diagnóstico, um mecanismo psicológico capaz de organizar um fenômeno enorme e complexo. A ciência, porém, exige mais cuidado. A abstenção eleitoral não nasce de uma única causa e não pode ser reduzida a uma característica da personalidade, a uma emoção específica ou a um comportamento coletivo isolado. Existem fatores logísticos, econômicos, educacionais, institucionais, sociais, políticos e psicológicos que se combinam de maneiras diferentes em cada contexto. O que a psicologia pode fazer é iluminar algumas peças desse quebra-cabeça e nos ajudar a formular perguntas melhores.

No primeiro turno das eleições de 2026, 21,08% do eleitorado brasileiro não compareceu, o equivalente a cerca de 33,4 milhões de pessoas. O número foi o maior registrado em um primeiro turno de eleições gerais desde 1998. O dado, por si só, não nos diz por que cada eleitor faltou. Mas ele torna impossível ignorar uma pergunta: o que faz uma pessoa perceber a própria participação como relevante ou irrelevante dentro de uma decisão coletiva que envolve milhões?

Um dos conceitos mais importantes para essa discussão é a eficácia política percebida. Em termos simples, trata-se da percepção de que a própria ação pode ter alguma influência sobre a vida política. Essa ideia não significa acreditar que uma pessoa controla o sistema ou que um voto isolado decide uma eleição. Significa sentir que participar não é um gesto vazio. Há décadas, estudos em ciência política e psicologia política relacionam maior percepção de eficácia a maior envolvimento político. E pesquisas recentes reforçam essa associação.

Em 2026, um estudo publicado no Journal of Experimental Social Psychology examinou a relação entre condição socioeconômica, percepção de eficácia política e participação. Os pesquisadores analisaram dados de dezenas de milhares de pessoas em diferentes países e também realizaram estudos com amostras brasileiras. Os resultados indicaram que pessoas em condições socioeconômicas mais desfavoráveis tendiam a apresentar menor engajamento político e que parte dessa diferença era explicada por uma menor percepção de eficácia. Em experimentos realizados inclusive com moradores de áreas de alta vulnerabilidade no Rio de Janeiro, intervenções voltadas a fortalecer a sensação de eficácia política aumentaram medidas de participação. É um resultado importante porque mostra que a percepção de influência não é apenas uma abstração teórica. Ela pode interferir concretamente na disposição para participar.

Isso nos leva a uma distinção essencial. Sentir que não se controla o resultado é diferente de sentir que não se possui qualquer influência. Nenhum eleitor controla sozinho uma eleição. Nenhum cidadão determina sozinho uma política pública. A vida democrática, por definição, distribui poder entre muitas pessoas, instituições e regras. Mas quando a mente transforma “eu não controlo tudo” em “eu não influencio nada”, nasce uma distorção perigosa. A distância entre essas duas frases parece pequena, mas comportamentalmente pode ser enorme.

Outro conjunto de estudos ajuda a compreender como a responsabilidade individual pode se enfraquecer em situações coletivas. Em 1968, Bibb Latané e John Darley realizaram um experimento clássico no qual participantes preenchiam questionários enquanto fumaça entrava no ambiente. Quando estavam sozinhos, 75% comunicaram a situação. Quando estavam na presença de duas pessoas que permaneciam tranquilas e não reagiam, apenas 10% fizeram o alerta. Em grupos de três participantes que desconheciam o experimento, pelo menos uma pessoa comunicou o problema em 38% dos grupos. A interpretação científica desse tipo de situação envolve fenômenos como influência social, ignorância pluralista e difusão da responsabilidade.

É importante fazer aqui uma separação clara. O chamado efeito espectador não explica a abstenção eleitoral brasileira, e seria um erro afirmar o contrário. Uma sala com fumaça e uma eleição nacional são situações completamente diferentes. O valor desse experimento para a nossa reflexão está em mostrar algo mais básico sobre o comportamento humano: a presença e a atitude dos outros podem alterar a maneira como percebemos nossa própria necessidade de agir. Em outras palavras, a responsabilidade não é vivida apenas como uma qualidade individual. Ela também é influenciada pelo contexto.

Isso ajuda a compreender por que frases como “alguém vai votar”, “meu voto não muda nada” ou “uma pessoa a mais não faz diferença” merecem ser observadas com cuidado. Não porque revelem preguiça, falta de caráter ou desinteresse. Julgamentos desse tipo não ajudam e não têm base para explicar milhões de pessoas. O ponto é outro. Quando o indivíduo passa a perceber a ação coletiva como algo distante demais de si, a própria contribuição pode parecer irrelevante. E o que parece irrelevante tende a receber menos energia, menos atenção e menos disposição para ação.

Há ainda fatores objetivos que não podem ser psicologizados. Pesquisas mostram que dificuldades econômicas, desigualdade de recursos, escolaridade, socialização política, conhecimento sobre o processo eleitoral e condições concretas de vida influenciam o engajamento. Um estudo recente sobre participação política encontrou diferenças associadas à condição socioeconômica em diversos países e mostrou que a eficácia política é uma das pontes entre desigualdade social e participação. Outros trabalhos identificam que dificuldades financeiras agudas podem reduzir intenção de voto e comparecimento. Isso importa porque evita uma interpretação injusta: nem toda ausência nasce de uma escolha livre feita em condições iguais.

Da mesma forma, pesquisas sobre não votantes apontam perfis diferentes. Existem pessoas desiludidas, pessoas pouco engajadas, pessoas que acompanham a política mas permanecem em espera e cidadãos cuja ausência está mais ligada a circunstâncias do que a rejeição do processo. A ciência, portanto, nos afasta de uma narrativa simplista do “brasileiro que não liga para política”. Não existe um único não eleitor. Existem diferentes histórias de afastamento, diferentes barreiras e diferentes formas de relação com a vida pública.

E onde entra a sensação de impotência? Com cautela. O conceito de impotência aprendida, desenvolvido originalmente em outro campo da psicologia, descreve situações em que experiências repetidas de falta de controle podem levar à redução da iniciativa mesmo quando novas possibilidades de ação aparecem. Não é correto transformar esse conceito em diagnóstico da abstenção eleitoral. Porém, ele nos oferece uma pergunta relevante: depois de sucessivas experiências de frustração, promessas não cumpridas, escândalos, conflitos e sensação de pouca influência, algumas pessoas podem começar a agir como se nenhuma forma de participação tivesse valor? A pergunta é legítima. A resposta exige pesquisa, e não slogan.

Esse cuidado é fundamental porque ciência não serve para confirmar previamente aquilo em que queremos acreditar. Serve também para limitar nossas conclusões. O que podemos afirmar com maior segurança é que participação política está associada a múltiplos fatores e que a percepção de eficácia é um deles. Também sabemos que recursos, condições sociais, conhecimento, confiança, socialização e desenho institucional importam. E sabemos que experiências participativas, em alguns contextos, podem aumentar conhecimento político, atitudes democráticas e percepção de eficácia. Participar e sentir que a participação tem sentido parecem processos que podem se alimentar mutuamente.

Essa talvez seja a contribuição mais interessante da psicologia para a discussão eleitoral de agora. Em vez de perguntar apenas “por que as pessoas não votam?”, podemos perguntar “o que fortalece a percepção de que vale a pena participar?”. A mudança parece pequena, mas altera completamente a direção da conversa. A primeira pergunta procura culpa. A segunda procura condições para presença. E sociedades democráticas maduras precisam das duas coisas que muitas vezes se perdem no debate político: responsabilidade individual e condições coletivas para que essa responsabilidade possa ser exercida.

No Brasil, onde o voto é obrigatório para parte expressiva do eleitorado, a existência da obrigação legal não elimina a dimensão psicológica da participação. Comparecer à urna pode ser uma exigência jurídica, mas participar conscientemente é outra coisa. Consciência exige informação, percepção de escolha, capacidade de avaliar alternativas e alguma crença de que a própria decisão merece existir. Uma democracia pode obrigar o comparecimento em determinadas condições, mas não pode obrigar uma pessoa a sentir que sua presença importa. Isso precisa ser construído.

É por isso que, nesta série sobre eleições, comportamento e consciência, tenho insistido em uma frase: não votar também é uma decisão. Não como acusação a quem se ausenta, mas como lembrança de que a ausência também produz uma consequência dentro de um processo que seguirá acontecendo. Quem não compareceu ao primeiro turno pode votar normalmente no segundo, desde que esteja em situação eleitoral regular. O segundo turno de 2026 acontece neste domingo, 25 de outubro. A possibilidade de presença, portanto, ainda está aberta.

Talvez o debate público ganhe mais maturidade quando deixarmos de tratar a abstenção apenas como um problema de disciplina eleitoral e começarmos a enxergá-la também como um fenômeno humano complexo. Há pessoas impedidas por circunstâncias. Há pessoas desiludidas. Há pessoas que não se sentem representadas. Há pessoas que perderam a crença na própria influência. Há pessoas que simplesmente escolheram não participar. Cada grupo pede perguntas diferentes. O que não deveríamos fazer é reduzir todos a uma explicação confortável.

A psicologia não pode dizer ao eleitor em quem votar. Não deveria. Também não pode transformar uma eleição em laboratório e atribuir causalidade onde não existe evidência. O que ela pode fazer é nos mostrar que percepção, contexto, crença de eficácia, recursos e experiências anteriores influenciam a disposição humana para agir. E talvez possa nos devolver uma pergunta simples, mas necessária: quando eu digo que minha participação não faz diferença, estou descrevendo um fato ou uma crença?

Essa diferença importa muito. Porque fatos podem ser avaliados, mas crenças também podem ser revistas. Nenhum voto carrega sozinho o destino de um país. Nenhum cidadão controla a democracia inteira. Mas participação coletiva nunca existiu sem decisões individuais. O desafio não é convencer cada pessoa de que ela controla tudo. É ajudá-la a perceber que não controlar tudo não significa não ter parte alguma. Entre a onipotência e a impotência existe um território mais adulto: responsabilidade. É nesse território que a democracia acontece.

José Roberto Marques é autor de mais de 132 livros, cientista, pesquisador e especialista em comportamento e desenvolvimento humano, fundador do Grupo IBC Educação. Sua trajetória inclui atuação em educação, formação de profissionais, produção de conteúdo e projetos de impacto social, com mais de 6 milhões de pessoas impactadas.

FAQ – Perguntas Frequentes

A psicologia explica por que as pessoas não votam?

A psicologia ajuda a compreender fatores que podem influenciar a participação, como percepção de eficácia, responsabilidade e contexto social. A abstenção, porém, tem múltiplas causas e não pode ser explicada por um único mecanismo psicológico.

O que é eficácia política percebida?

É a percepção de que a própria participação pode ter algum efeito na vida política. Pesquisas associam maior eficácia percebida a maior engajamento e participação.

O efeito espectador explica a abstenção eleitoral?

Não. O efeito espectador foi estudado em contextos muito diferentes e não deve ser usado como explicação causal direta da abstenção. Ele pode apenas ilustrar como o contexto social influencia a percepção de responsabilidade.

Condição socioeconômica influencia participação política?

Sim. Estudos mostram associações entre condição socioeconômica, recursos, percepção de eficácia e engajamento político. Isso reforça que a participação não depende apenas de vontade individual.

Quem faltou no primeiro turno de 2026 pode votar no segundo?

Sim. Cada turno é considerado uma eleição independente. Quem não votou no primeiro turno pode participar do segundo, desde que esteja em situação eleitoral regular.

Você também vai gostar de ler...