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Você Está Decidindo ou Apenas Repetindo?

VOCÊ ESTÁ DECIDINDO OU APENAS REPETINDO?

O voto sob o olhar da Psicologia Marquesiana e da Metateoria da Consciência Marquesiana

Por José Roberto Marques

Consciência não é apenas saber em quem votar. É conseguir perceber de onde está vindo a sua escolha.

A urna é um lugar de escolha. Mas existe uma pergunta anterior à urna que me interessa ainda mais: quando você escolhe, quem está escolhendo dentro de você? Parece uma pergunta estranha, mas ela toca um ponto central daquilo que venho estudando há décadas sobre comportamento humano, história emocional e consciência. Nem toda decisão nasce do mesmo lugar. Algumas escolhas nascem de análise. Outras nascem do medo. Algumas nascem de valores. Outras nascem da necessidade de pertencer. Algumas são construídas no presente. Outras podem carregar ecos de experiências antigas que continuam influenciando a maneira como interpretamos autoridade, ameaça, confiança, justiça, futuro e segurança. Por isso, antes de perguntar apenas em quem uma pessoa vai votar, talvez seja importante perguntar de onde essa decisão está vindo.

Essa reflexão ganha uma dimensão especial quando o Brasil se prepara para o segundo turno das eleições de 2026. No primeiro turno, 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado. Esse dado não autoriza qualquer conclusão sobre a vida emocional de quem não votou, e seria cientificamente irresponsável transformar uma ausência eleitoral em diagnóstico psicológico. Há razões logísticas, econômicas, sociais, pessoais e políticas muito diferentes por trás da abstenção. Mas o tamanho do fenômeno abre espaço para uma pergunta mais ampla, que vale tanto para quem vota quanto para quem não vota: nossas decisões estão sendo tomadas conscientemente ou estamos apenas reagindo a histórias, medos, pertencimentos e automatismos que nem sempre percebemos?

Na Psicologia Marquesiana, parto da compreensão de que o comportamento presente não começa necessariamente no presente. Nós carregamos histórias. Carregamos interpretações que construímos sobre nós mesmos, sobre as outras pessoas e sobre o mundo. Algumas dessas interpretações foram formadas em momentos de dor, vulnerabilidade, perda, rejeição, abandono, traição, injustiça, humilhação, fracasso, abusos, desconexão de si mesmo ou falta de sentido da vida. Essas experiências não determinam automaticamente aquilo que faremos amanhã, nem permitem prever preferência política. Mas podem participar da maneira como percebemos situações futuras. A consciência começa justamente quando conseguimos reconhecer a diferença entre aquilo que está acontecendo agora e aquilo que a nossa história emocional nos ensinou a esperar que acontecesse.

É importante afirmar isso com toda clareza: as 9 Dores da Alma da Psicologia Marquesiana não são um instrumento para classificar eleitores, prever votos ou associar uma dor a uma posição política. Não existe base séria para dizer que quem carrega determinada dor votará em determinado candidato ou defenderá determinada ideologia. Fazer isso seria reduzir uma teoria sobre a complexidade humana a uma caricatura política. A contribuição possível está em outro lugar. As Dores da Alma podem nos ajudar a perguntar quais necessidades, sensibilidades e padrões de proteção estão presentes quando tomamos decisões importantes.

Uma pessoa marcada por experiências de Rejeição pode, em determinados contextos, tornar-se especialmente sensível à possibilidade de não pertencer. Alguém cuja história foi atravessada pelo Abandono pode buscar segurança com intensidade maior diante de cenários percebidos como instáveis. A Traição pode tornar a confiança um tema central. A Injustiça pode ampliar a sensibilidade a promessas de reparação ou à percepção de que algo precisa ser corrigido. A Humilhação pode fazer com que dignidade e reconhecimento ganhem peso extraordinário. O Fracasso pode interferir na expectativa de futuro e na crença de que mudança é realmente possível. Experiências de Abusos podem alterar profundamente a relação de alguém com poder, controle e vulnerabilidade. A Desconexão de si mesmo pode dificultar a distinção entre desejo próprio e pressão externa. E a Falta de sentido da vida pode tornar qualquer promessa de direção especialmente sedutora. Nada disso determina uma escolha eleitoral. Mas tudo isso nos lembra que decisão humana nunca é apenas cálculo racional.

Talvez uma das contribuições mais importantes da Metateoria da Consciência Marquesiana seja justamente colocar a consciência entre o estímulo e a resposta. Algo acontece fora de nós, mas também algo acontece dentro de nós. Existe o fato, existe a interpretação do fato, existe a emoção mobilizada por essa interpretação e existe a resposta que damos a partir dela. Quanto menos consciência temos desse percurso, maior a chance de confundir reação com decisão. A pessoa acredita que está escolhendo livremente, mas pode estar apenas obedecendo a um medo antigo, a uma lealdade emocional, à necessidade de aprovação ou ao desejo de evitar novamente uma dor que já conhece.

Isso vale para política, mas está longe de valer apenas para política. Uma pessoa pode escolher permanecer em um relacionamento porque teme o abandono. Pode dizer sim quando gostaria de dizer não porque teme rejeição. Pode desistir de um projeto antes de começar porque já espera fracassar. Pode evitar uma conversa necessária porque associa confronto a humilhação. Pode aceitar uma narrativa pronta porque pertencer a um grupo parece emocionalmente mais seguro do que sustentar uma dúvida própria. A eleição apenas torna visível, em um momento coletivo, uma pergunta que acompanha a vida inteira: eu estou escolhendo a partir da consciência ou estou tentando me proteger de alguma coisa que talvez nem esteja mais acontecendo?

Quando essa pergunta chega à política, ela precisa ser tratada com muito cuidado. Política envolve identidade, valores, pertencimento, memória, esperança, raiva, medo, confiança e visão de futuro. É natural que mexa profundamente com as pessoas. O problema começa quando a emoção deixa de ser uma informação da nossa experiência e passa a ser a única autora da decisão. Sentir medo não significa que o perigo imaginado seja necessariamente real. Sentir raiva não significa que toda interpretação feita sob raiva seja verdadeira. Sentir pertencimento não significa que o grupo esteja sempre certo. Sentir esperança não significa que toda promessa seja possível. Consciência é a capacidade de sentir sem entregar completamente ao sentimento o comando da escolha.

Por isso, uma decisão consciente exige um movimento que considero essencial: separar fato, interpretação e história emocional. O que eu sei? O que estou supondo? O que estou sentindo? O que, nessa situação, pertence ao presente e o que pode estar sendo amplificado pelo meu passado? Quem eu seria nessa decisão se não precisasse provar nada a ninguém, pertencer a nenhum grupo e fugir de nenhuma dor? Essas perguntas não dizem em quem votar. Elas fazem algo mais valioso: devolvem a decisão para quem deveria tomá-la.

Existe ainda uma dimensão coletiva. As redes sociais tornaram muito mais fácil confundir repetição com convicção. Vemos uma frase muitas vezes, ouvimos pessoas parecidas conosco dizendo a mesma coisa, recebemos aprovação quando concordamos e resistência quando duvidamos. Aos poucos, aquilo que era uma opinião do grupo pode começar a parecer uma verdade produzida por nós mesmos. A consciência exige coragem para perceber isso. Talvez eu esteja repetindo porque acredito. Mas talvez eu esteja acreditando porque repeti muitas vezes. A diferença entre essas duas situações é enorme.

Esse é um dos motivos pelos quais considero o voto secreto uma instituição psicologicamente tão poderosa. Dentro da cabine, a pressão do grupo não deveria entrar. O aplauso não entra. A crítica não entra. O medo de desagradar alguém não deveria entrar. Fica o cidadão diante da própria decisão. É quase um convite institucional para a consciência. Não existe garantia de que a escolha será racional, perfeita ou livre de influências. Nenhuma decisão humana é completamente livre da própria história. Mas existe a possibilidade de interromper o automático e perguntar: isso é realmente meu?

Na Metateoria da Consciência Marquesiana, essa interrupção do automático é decisiva. Consciência não significa eliminar a emoção, apagar a história ou tornar-se uma pessoa sem dores. Significa conseguir olhar para aquilo que sentimos sem ser totalmente governados por isso. Significa reconhecer padrões sem transformá-los em destino. Significa perceber que uma dor pode explicar parte de uma reação sem precisar comandar a próxima escolha. Entre aquilo que aconteceu comigo e aquilo que farei agora existe um espaço. É nesse espaço que a ressignificação se torna possível.

Talvez seja por isso que a democracia também possa ser vista como um exercício de maturidade emocional. Não porque cidadãos precisem pensar igual, mas porque precisam sustentar diferenças sem transformar o outro em inimigo absoluto. Quem discorda de mim não necessariamente me rejeita. Quem escolhe diferente não necessariamente me abandona. Uma derrota política não precisa ser vivida como humilhação pessoal. Uma crítica não precisa ser interpretada como traição. Uma eleição não deveria obrigar ninguém a repetir antigas dores dentro de novas relações. Quando política e feridas emocionais se confundem completamente, o debate público deixa de ser apenas disputa de ideias e começa a se transformar em batalha de sobrevivência subjetiva.

Neste domingo, 25 de outubro, quem não votou no primeiro turno pode participar normalmente do segundo, desde que esteja em situação eleitoral regular. Cada turno é uma eleição independente. Mas, para mim, a questão mais importante continua anterior ao comparecimento. Não basta estar fisicamente presente se a consciência estiver ausente. Não basta apertar números se a decisão foi terceirizada para o medo, para o grupo, para a raiva ou para uma história emocional que nunca foi questionada. O ato democrático mais profundo talvez não aconteça no instante em que a pessoa confirma o voto, mas alguns minutos antes, quando consegue perguntar honestamente a si mesma: de onde está vindo a minha escolha?

Não quero que ninguém vote como eu. Quero que cada pessoa consiga reconhecer a autoria da própria decisão. Se depois de pesquisar, questionar, comparar, sentir e refletir você chegar a uma conclusão diferente da minha, isso faz parte da democracia. O que me preocupa é uma sociedade em que as pessoas parem de pensar e apenas reproduzam. Em que confundam pertencimento com consciência. Em que transformem dor em identidade permanente. Em que entreguem aos outros a responsabilidade de dizer não apenas em quem votar, mas o que sentir, quem odiar, de quem desconfiar e o que acreditar.

Consciência não é saber em quem votar. Consciência é saber de onde está vindo a sua escolha. Talvez essa seja uma contribuição que a Psicologia Marquesiana pode oferecer ao debate público: antes de tentar controlar o futuro, precisamos compreender quem dentro de nós está tentando escolhê-lo. A pergunta serve para domingo, mas não termina no domingo. Ela vale para relacionamentos, carreira, dinheiro, família, liderança e para todas as decisões que constroem uma vida. Você está decidindo ou apenas repetindo? Quando essa pergunta é feita com coragem, a urna deixa de ser apenas um lugar de voto e se transforma, por alguns segundos, em um espelho da própria consciência.

José Roberto Marques é autor de mais de 132 livros, cientista, pesquisador e especialista em comportamento e desenvolvimento humano, fundador do Grupo IBC Educação. Criador da Psicologia Marquesiana e da Metateoria da Consciência Marquesiana, desenvolve estudos sobre história emocional, consciência, comportamento, Dores da Alma e processos de ressignificação.

FAQ – Perguntas Frequentes

A Psicologia Marquesiana afirma que as Dores da Alma determinam o voto?

Não. As Dores da Alma não devem ser usadas para prever preferência partidária, candidato ou comportamento eleitoral. Elas podem ajudar a refletir sobre histórias emocionais, sensibilidades e padrões de proteção que participam da tomada de decisão.

Quais são as 9 Dores da Alma na Psicologia Marquesiana?

Rejeição, Abandono, Traição, Injustiça, Humilhação, Fracasso, Abusos, Desconexão de si mesmo e Falta de sentido da vida.

O que significa consciência na Metateoria da Consciência Marquesiana?

Neste contexto, consciência envolve perceber a diferença entre fato, interpretação, emoção, história emocional e resposta, criando espaço para uma escolha menos automática e mais autoral.

História emocional influencia decisões?

Experiências passadas podem participar da forma como uma pessoa interpreta situações presentes, embora não determinem automaticamente uma decisão específica. A proposta do artigo é estimular reflexão, não estabelecer causalidade eleitoral.

Qual é a pergunta central deste artigo?

A pergunta é: estou realmente decidindo ou apenas repetindo respostas, medos, pertencimentos e padrões que aprendi ao longo da vida?

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