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Patriotismo sem partido: por que votar é um ato de presença

PATRIOTISMO SEM PARTIDO: POR QUE VOTAR É UM ATO DE PRESENÇA

Por José Roberto Marques

Neste domingo, o Brasil volta às urnas. Não é preciso vestir uma cor, defender um partido ou pensar como alguém. É preciso apenas não entregar aos outros a responsabilidade inteira por uma escolha que também pertence a você.

Neste domingo, milhões de brasileiros vão sair de casa para fazer uma coisa que, à primeira vista, parece pequena. Caminhar até uma seção eleitoral, apresentar um documento, entrar em silêncio diante de uma urna e escolher. Alguns farão isso com entusiasmo. Outros, com dúvida. Muitos irão cansados, desconfiados, decepcionados ou sem sentir que qualquer das alternativas representa exatamente aquilo em que acreditam. Democracia real é assim. Ela não acontece apenas quando estamos satisfeitos. Ela também acontece quando participamos mesmo carregando perguntas, divergências e frustrações.

Talvez tenhamos transformado a palavra patriotismo em uma palavra grande demais, barulhenta demais e, muitas vezes, partidária demais. Para algumas pessoas, patriotismo passou a ser uma cor. Para outras, um lado. Para outras, uma bandeira ideológica. Eu gostaria de propor uma ideia mais simples. Patriotismo pode ser apenas a disposição de não abandonar a pequena parte do país que está ao nosso alcance. E neste domingo essa pequena parte cabe, por alguns minutos, dentro da nossa própria consciência.

O voto é secreto por uma razão profunda. Naquele instante, ninguém precisa saber o que você decidiu. Seu chefe não entra com você. Sua família não entra com você. Seu grupo de WhatsApp não entra com você. A pessoa que você admira também fica do lado de fora. Ali existe um encontro silencioso entre você, aquilo em que acredita e as consequências da escolha que está fazendo. Talvez esse seja um dos raros momentos em uma sociedade de milhões de pessoas em que somos chamados individualmente a responder: o que eu faço com a parte que me cabe?

No primeiro turno das eleições de 2026, 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas. Foram 21,08% dos eleitores aptos a votar. O número impressiona e não pode ser interpretado de maneira simplista. Há doenças, viagens, dificuldades de locomoção, imprevistos e inúmeras razões legítimas para uma ausência. Mas existe também uma reflexão que não deveríamos evitar. O que acontece quando alguém deixa de participar não porque não pode, mas porque passou a acreditar que a sua presença não vale nada?

Essa pergunta não é apenas política. É profundamente humana. Quantas vezes uma pessoa desiste de uma conversa porque acredita que ninguém vai ouvi-la? Quantas vezes deixa de tentar porque pensa que uma ação pequena não mudará nada? Quantas vezes abandona uma possibilidade antes mesmo de testá-la porque já decidiu, dentro de si, que aquilo não fará diferença? A sensação de impotência não começa quando perdemos todo o poder. Muitas vezes começa quando deixamos de reconhecer o poder que ainda temos.

Nenhum voto decide sozinho uma eleição. Mas esse nunca foi o compromisso da democracia. Democracia não entrega a ninguém o controle total. Ela distribui responsabilidade. O seu voto não precisa carregar o peso inteiro de um país para ter valor. Ele precisa apenas carregar a sua parte. E essa é uma diferença importante. Quando confundimos “eu não controlo tudo” com “eu não posso fazer nada”, abrimos mão justamente da parcela de influência que ainda existe.

Por isso, eu não quero pedir que ninguém vote como eu. Não quero dizer em quem você deve votar. Não quero transformar uma reflexão sobre consciência em propaganda disfarçada. Quero defender exatamente o contrário: que você preserve a liberdade da sua escolha. Pesquise. Compare propostas. Olhe trajetórias. Desconfie de frases prontas, inclusive das que confirmam aquilo que você já pensa. Converse com pessoas diferentes. Mude de opinião se os fatos pedirem mudança. E, no final, decida a partir da sua consciência, não da pressão de um grupo.

Quem não votou no primeiro turno ainda pode votar no segundo, desde que esteja em situação regular com a Justiça Eleitoral. Cada turno é considerado uma eleição independente. Neste domingo, 25 de outubro, a votação acontece das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Pode parecer apenas uma informação de serviço, mas talvez exista algo simbólico nisso. Para quem esteve ausente antes, a história não terminou. Existe outra oportunidade de estar presente.

Estar presente não significa concordar com o sistema inteiro. Não significa acreditar que tudo funciona como deveria. Não significa deixar de criticar instituições, governos, partidos ou candidatos. Aliás, participar conscientemente também é conservar o direito de cobrar depois. O voto não encerra a cidadania. Ele inaugura uma responsabilidade que continua no dia seguinte, na fiscalização, na cobrança, na conversa pública, na capacidade de reconhecer acertos e apontar erros, independentemente de quem venceu.

Esse é o patriotismo que me interessa. Um patriotismo adulto. Um patriotismo que não precisa gritar para existir. Um patriotismo que não exige unanimidade. Um patriotismo que consegue respeitar a escolha do outro sem abandonar a própria. Porque amar um país não significa querer que todos pensem igual. Talvez signifique exatamente o contrário: aceitar que pessoas diferentes podem disputar ideias, fazer escolhas distintas e ainda assim compartilhar a responsabilidade de preservar o espaço onde essas diferenças podem existir.

Nós precisamos ter muito cuidado para não transformar discordância em desumanização. Uma eleição termina. As relações permanecem. Famílias permanecem. Empresas permanecem. Comunidades permanecem. O país permanece. Quem pensa diferente de você continuará dividindo a rua, o trabalho, a escola, a cidade e o futuro com você. Por isso, votar conscientemente também significa compreender que democracia não é destruir o outro. É conviver com a possibilidade de o outro escolher diferente.

Talvez seja por isso que eu prefira falar em presença, e não apenas em obrigação. A lei pode estabelecer deveres eleitorais. Mas nenhuma lei consegue obrigar consciência. Consciência é quando você entende por que está fazendo aquilo. É quando deixa de agir apenas porque alguém mandou e começa a assumir a autoria da própria decisão. Nesse sentido, votar não é apenas comparecer. É comparecer por inteiro.

Neste domingo, antes de sair de casa, eu gostaria que você fizesse uma pergunta a si mesmo. Não “em quem José Roberto Marques vai votar?”. Não “em quem meu amigo vai votar?”. Não “qual candidato meu grupo prefere?”. Pergunte: o que a minha consciência me pede depois de tudo o que eu li, ouvi, pesquisei e vivi? Essa resposta pertence a você. E justamente porque pertence a você, ela merece ser assumida.

Não vote como eu. Vote como alguém que pensou. Não vote movido pelo medo de ser rejeitado por um grupo. Não vote apenas para pertencer. Não deixe de votar apenas porque está frustrado. Permita que sua decisão seja verdadeiramente sua. Porque liberdade não é fazer o que os outros esperam de nós. Liberdade é conseguir escutar a própria consciência mesmo quando existe barulho demais ao redor.

No domingo, não precisamos estar do mesmo lado político para estarmos do mesmo lado democrático. Podemos discordar profundamente e ainda reconhecer uma coisa em comum: este país também é nossa responsabilidade. Essa responsabilidade não cabe apenas ao presidente, ao governador, ao Congresso, ao Judiciário ou aos partidos. Ela chega até nós de formas pequenas. Uma delas é o voto.

Patriotismo, para mim, não é vestir a cor de um candidato. É assumir a pequena parte do futuro coletivo que cabe a você. Pense. Questione. Pesquise. Compare. Decida. E esteja presente. A eleição seguirá seu curso de qualquer maneira. A pergunta é se você estará presente na própria escolha. Porque, algumas vezes, fazer parte da história não exige um gesto grandioso. Exige apenas não abrir mão da parte que era sua.

José Roberto Marques é autor de mais de 132 livros, cientista, pesquisador e especialista em comportamento e desenvolvimento humano, fundador do Grupo IBC Educação. Sua trajetória inclui atuação em educação, formação de profissionais, produção de conteúdo e projetos de impacto social, com mais de 6 milhões de pessoas impactadas.

FAQ – Perguntas Frequentes

Por que votar é importante?

Porque o voto é uma das formas diretas de participação do cidadão na escolha de representantes. Um voto não controla sozinho o resultado, mas integra uma decisão coletiva formada pela soma de milhões de escolhas.

Patriotismo significa apoiar um candidato ou partido?

Não. Patriotismo pode ser compreendido como responsabilidade com a vida coletiva, independentemente de preferência partidária.

Quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo turno de 2026?

Sim. Quem faltou ao primeiro turno pode votar normalmente no segundo, desde que esteja em situação eleitoral regular.

Quando e em que horário acontece o segundo turno de 2026?

O segundo turno acontece em 25 de outubro de 2026, com votação das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.

O voto precisa ser igual ao de familiares ou pessoas próximas?

Não. O voto é secreto e deve refletir a decisão livre e consciente de cada eleitor.

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