A NEUROCIÊNCIA E A DOR DA REJEIÇÃO

Rejeição A dor da Rejeição

Por que sofremos emocionalmente quando somos rejeitados? Ou, mais precisamente, por que a rejeição dói tanto e afeta nosso bem-estar? Essas perguntas são verdadeiros quebra-cabeças para os estudiosos da mente humana.

Mesmo que não exista resposta fácil, proponho mantermos essas perguntas norteadoras como um ponto de partida para nossas investigações. Todos nós sabemos muito bem que ser rejeitado ou excluído socialmente é extremamente desagradável, doloroso. No entanto, as respostas para as perguntas iniciais desta seção permanecem um mistério para a maioria de nós.

A Neurociência, que é o estudo científico do funcionamento do sistema nervoso e das suas relações com o comportamento humano, pode nos ajudar a esclarecer um pouco mais o problema da rejeição. A partir de estudos recentes, que irei compartilhar aqui com você, surgiram novas hipóteses e, também, novas questões.

Ao longo dos últimos anos, as pesquisas em Neurociência revolucionaram o entendimento dessas questões acerca da rejeição e da exclusão social, ao demonstrar que a dor social ou emocional, que sentimos em situações de exclusão e rejeição, é processada pela mesma região neural que processa a dor física. Em outras palavras, dizemos que a rejeição dói e machuca porque ela ativa exatamente o mesmo campo que processa, no cérebro, outras dores, como por exemplo queimaduras ou lesões. O fato de a espécie humana ser uma espécie essencialmente relacional pode ser, em parte, o motivo pelo qual existe essa sobreposição de dois tipos tão diferentes de dor (a dor física e a dor emocional/social) em uma mesma região do cérebro.

Os laços sociais são realmente imprescindíveis para a sobrevivência humana na medida em que garantem maior probabilidade de conservação e manutenção da espécie. Mais especificamente, o ser humano nasce completamente imaturo e incapaz de se alimentar e de sobreviver sozinho. Assim, todo ser humano depende inteiramente dos cuidados e da atenção de pelo menos um outro ser humano para se desenvolver durante os primeiros anos de vida. Nos primeiros anos de vida essa dependência é crucial para a sobrevivência. Mas a necessidade de interação social não se limita aos cuidados de um recém-nascido.

Ao longo da vida as conexões e relacionamentos íntimos que cada indivíduo estabelece possibilitam o acesso a uma enorme variedade de recursos compartilhados, como comida e abrigo, além de proteção. Assim, ao contemplar a história da evolução humana, percebe-se que ser rejeitado por outros seres humanos significava uma enorme redução das chances de sobrevivência. Consequentemente, a nossa mente evoluiu e se adaptou para interpretar essas experiências de abandono e rejeição como verdadeiramente dolorosas. Por isso, tendemos a evitar situações que ameacem o rompimento de laços sociais.

Dito de outro modo, visto que a rejeição ameaça as chances de sobrevivência, sentir dor ao ser rejeitado faz parte de um processo adaptativo da espécie humana para prevenir tais situações. Existem muitas evidências de que, apesar da enorme diferença entre a dor física e a dor emocional, elas compartilham o mesmo substrato neural. Estudos realizados por Naomi Eisenberger, da Universidade da Califórnia, apontam ainda que existe uma correlação entre a sensibilidade dos dois tipos de dor: indivíduos que são mais sensíveis a um tipo de dor também apresentam a mesma sensibilidade para outro tipo.

Além disso, fatores que alteram a percepção de um tipo de dor também alteram a percepção do outro tipo de maneira congruente. A evidência mais imediata que podemos perceber dessa relação entre a rejeição e a dor é justamente a questão da linguagem utilizada para fazer referência a essas duas experiências. Se você já escutou alguém descrevendo como se sente após uma rejeição, você provavelmente já deve ter percebido que o vocabulário usado nesse contexto compartilha muitas palavras usadas para descrever dores físicas.

A expressão “coração partido” é um ótimo exemplo disso. De fato, a única maneira de descrever a dor de uma rejeição é utilizando palavras que remetam à dor física, por isso usamos expressões como “sofrimento psíquico”, “feridas da alma” etc. Obviamente, essa associação de vocabulário não é, por si só, suficiente para confirmar que existe de fato uma relação direta entre o que nossa mente sente como dor física e como dor social. Poderia se tratar de uma simples metáfora que usamos para tentar descrever algo que sentimos, para o qual, em geral, não encontramos palavras para expressá-lo a outras pessoas.

Assim, outras evidências mais convincentes foram encontradas a partir de outras fontes. Diversos estudos farmacológicos, por exemplo, têm fornecido preciosas evidências acerca da neuroquímica envolvida tanto em dores físicas quanto em dores sociais. Esses estudos também indicam que certas drogas têm efeito similar em ambos os tipos de dor.

Em uma pesquisa realizada sobre os efeitos de drogas derivadas do ópio, tais como morfina e heroína, cientistas puderam perceber que, embora essas drogas tenham sido criadas com o intuito primário de aumentar o alívio de dores físicas, elas também atuam reduzindo a sensação de dor e desconforto causados por situações sociais, como a rejeição.

Não é por acaso que o abuso de substâncias como heroína se tornou um verdadeiro problema de saúde pública em muitos países devido ao seu uso recreativo. essas drogas tenham sido criadas com o intuito primário de aumentar o alívio de dores físicas, elas também atuam reduzindo a sensação de dor e desconforto causados por situações sociais, como a rejeição. Não é por acaso que o abuso de substâncias como heroína se tornou um verdadeiro problema de saúde pública em muitos países devido ao seu uso recreativo.

Outras drogas que têm efeito similar em ambas as dores e que, portanto, também proporcionam evidências de correlação são os antidepressivos. Remédios indicados para tratar a depressão e a ansiedade resultantes de fatores sociais também acabam aliviando a dor física. Esses dados são muito interessantes, pois comprovam que alguns remédios e drogas que aliviam um tipo de dor também aliviam outro tipo. E, se esses remédios aliviam dois tipos de dores (social e física), isso é um reforço da hipótese de que a rejeição, enquanto dor social, compartilha o mesmo mecanismo no cérebro que a dor física. De fato, pesquisas com seres humanos e outros mamíferos mostraram que, quando foram forçados a se separarem de seus pares, tiveram a mesma região neural responsável por processar dores físicas ativada.

Antes de prosseguirmos, contudo, gostaria de fazer uma breve pausa para apresentar uma diferenciação de dois tipos de dores. Falar de Neurociência pode parecer complexo. Porém o ser humano é tão diversificado e maravilhoso, que toda teoria para compreendê-lo nos enriquece. Para facilitar a compreensão dos resultados dessas pesquisas, preparei alguns esquemas e divisões que podem ser úteis.

Ainda, segundo a cientista Naomi Eisenberger, toda experiência de dor fí- sica envolve pelo menos dois componentes no nosso cérebro: um sensorial e um afetivo. O componente sensorial diz respeito ao processamento discriminativo de local, intensidade e duração da dor. Se pisamos em um prego, por exemplo, nossa mente sabe que a dor está localizada em um dos pés, com determinada duração e intensidade a depender da profundidade da perfuração.

Já o componente afetivo processa os aspectos desagradáveis e desconfortáveis da dor, como por exemplo a identificação de qual o tipo de dor e também o tipo de sofrimento e incômodo causados por ela. A dor causada por uma rejeição não está localizada em nenhum lugar específico do corpo e, portanto, não depende tanto do componente sensorial. Para entendermos a dor da rejeição, precisamos investigar o componente afetivo envolvido em experiências dessa natureza. Os aspectos desagradáveis da dor são processados especificamente por regiões do cérebro chamados de córtex cingulado anterior e ínsula anterior.

Pesquisas têm indicado que essas regiões, além de processarem o componente afetivo do incômodo de dores físicas, também estão associadas com o desconforto presente em experiências de exclusão social. Em um estudo de neuroimagem realizado por Eisenberger, Lieberman e Williams, em 2003, participantes foram submetidos a duas partidas virtuais de um jogo interativo. No decorrer da segunda partida, os participantes eram excluídos durante o jogo. Os dados revelaram que, ao serem exclu- ídos do jogo, todos os participantes mostraram aumento de atividade da região dorsal do córtex cingulado anterior e da ínsula anterior.

O mais interessante é que os participantes que mostraram maior atividade nessas regiões foram justamente os mesmos que manifestaram mais respostas de incômodo, tais como “eu me senti rejeitado” e “eu me senti inútil e sem valor” Esses dados, por si só, já mostram um enorme avanço da ciência e o surgimento de diversas outras questões que nem sequer imaginávamos antes. Surpreendentemente, a maioria das pesquisas apresenta fortes indícios de que, de fato, existe correlação entre a dor física e a dor social, corroborando, portanto, a hipótese de que nossas dores estão na nossa mente.

Creio ser propício recapitular que, se a dor social e a dor física compartilham as mesmas estruturas neurais, surge a hipótese de que atenuantes que funcionam para um tipo de dor funcionam também para outra. Atenuantes farmacológicos realmente atuam em ambos os tipos de dor, conforme já mencionei anteriormente sobre drogas derivadas do ópio. No entanto remédios e outras drogas não são os únicos atenuantes de dor que existem.

Em diversos outros estudos, incluindo a Teoria do Apego de John Bowlby, constatou-se que o contexto e o suporte social interferem diretamente a capacidade de um indivíduo para tolerar a dor. Bowlby já havia observado, na década de 1960, que crianças muito pequenas, quando sofriam algum tipo de dor física, buscavam imediatamente o apoio de seus pais. Quanto mais distantes estivessem dos pais, maior era o nível de sofrimento.

Atualmente, com o conhecimento que adquirimos a respeito do circuito neural da dor e do mindset da rejeição, podemos supor que a criança, ao sofrer alguma dor física, busca não apenas aliviar a dor, mas, também, o conforto e a proximidade de sua mãe. E o mais interessante, a proximidade da mãe, de fato, atenua a dor física. Isso significa que não apenas remédios atuam em ambas as dores, também existem atenuantes sociais e relacionais. Em outras palavras, aquela cena clássica em que uma mãe beija a ferida de seu filho para passar a dor realmente funciona, bem como o abraço, o carinho, a atenção e o apoio.

Com tantos estudos e dados coletados, não fica difícil perceber e afirmar que a rejeição é um fenômeno que deve ser levado a sério. Acredito que não seja uma surpresa, para você, saber que a rejeição afeta os seres humanos em uma variedade de âmbitos: emocional, cognitivo, comportamental e também neural. Com tantas implicações, a rejeição não poderia deixar de gerar uma enorme gama de respostas emocionais negativas.

A rejeição, além de gerar sentimento de tristeza, melancolia e desemparo, pode também associar-se a problemas mais sérios, como alguns dos quais já abordamos neste livro. Sentir-se desemparado gera estresse, ansiedade, baixa autoestima, podendo chegar, inclusive, a ser um dos gatilhos para desencadear episó- dios depressivos. Se a rejeição (e a exclusão social, de forma geral) causa tantos prejuízos, é natural que a ciência busque uma solução. Acredito, aliás, que esse é o dever de todo cientista que trabalha com seres humanos.

E eu, como um desenvolvedor de pessoas, não poderia deixar de me incluir nesse dever. Afinal, este é o meu chamado e minha missão de vida.

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José Roberto Marques

Sobre o autor: José Roberto Marques é referência em Desenvolvimento Humano. Dedicou mais de 30 anos a fim de um propósito, o de fazer com que o ser humano seja capaz de atingir o seu Potencial Infinito! Para isso ele fundou o IBC, Instituto que é reconhecido internacionalmente. Professor convidado pela Universidade de Ohio e Palestrante da Brazil Conference, na Universidade de Harvard, JRM é responsável pela formação de mais de 50 mil Coaches através do PSC - Professional And Self Coaching, cujo os métodos são comprovados cientificamente através de estudo publicado pela UERJ . Além disso, é autor de mais de 50 livros publicados.



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